“Num mundo inundado de informações irrelevantes, clareza é poder”, escreve o historiador israelense Yuval Harari em “21 lições para o Século 21”. O sentido da primeira frase do livro diz respeito aos debates propostos por ele, ora celebrando a sabedoria humana ora destacando nossa estupidez. Paráfrases são necessárias, especialmente quando se pede licença para tentar associar um pensamento tão universal e contemporâneo às peculiaridades do nosso dia a dia.

Desde o começo da pandemia do novo coronavírus (sim, novo porque ainda surpreendente), a irrelevância e a maledicência tomaram conta dos discursos caóticos, típicos de momentos em que se tateia atrás de alguma verdade. Era ainda 2019, finalzinho do ano, quando se começou a falar sandices sobre uma nova descoberta na China. Justo a China.

Passados sete meses, a onda de desinformação se espalhou tão rápido quanto o vírus SARS Cov-2. Pior, essa “desinfodemia” tem ajudado a fomentar falsas ideias e acirrar o pensamento anticientífico. Teorias da conspiração transitam pelos campos político, econômico e social, todas a partir de argumentos sem base ou sustentados em dados distorcidos, mal interpretados ou mesmo inventados.

A rede internacional #CoronaVirusFacts Alliance, que reúne grupos de checagem em 70 países e em 40 línguas, tem até agora mapeado cerca de 7.100 “informações irrelevantes”, para usar o termo de Harari, cujo sentido é promover o obscurantismo. Todas as informações checadas são classificadas e organizadas num amplo banco de dados.

Fizemos uma rápida consulta, procurando por “teorias da conspiração” que circularam sobre a pandemia no Brasil, em língua portuguesa, somente no mês de agosto (que, aliás, ainda não terminou). Para situar: a base de dados mostrou 57 registros de informações falsas. O banco de dados fornece outras classificações, como distorcidas, fora de contexto, tudo depende dos critérios usados pelas agências checadoras.

Foram cinco as informações falsas, categorizadas como “teoria da conspiração” no mês de agosto: tem Bill Gates alertando que a vacina contra o coronavírus muda o DNA, a China incluindo nela chips para controlar as pessoas através da tecnologia 5G, o boicote econômico à China por ter iniciado a pandemia, a distribuição de capsulas vazias de cloroquina e a disseminação de que o país não teve 100 mil mortes por Covid-19, já que a pandemia é uma farsa.

É só dar uma olhada na linha do tempo abaixo:

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Clareza é poder, como diz Yuval Harari. Mas é preciso refletir também sobre os afetos que movem os disseminadores desses compêndios difamatórios e nada irrelevantes no sentido da formação de juízos de valor ingênuos a respeito do mundo, desse mundo de hoje. De tão conspiratórias, as teorias postas aqui na linha do tempo desestabilizam o sentido de verdade, a ponto de por em xeque a Ciência e o Jornalismo, para ficarmos no campo da produção do conhecimento e da informação a partir de métodos e de investigação. É como se ambos pudessem ser traduzidos por emojis.

Última atualização feita há 2 anos por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

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