Meados da década de 80. No jornal O Estado, em Florianópolis, a redação está abarrotada de repórteres recém chegados da rua. As máquinas de escrever, em ritmos diversificados, oferecem uma sinfonia típica do jornalismo clássico, na qual o resultado da obra não é para os ouvidos. Sobre as cabeças, quase dá para ver as manchetes do dia seguinte em meio à névoa de nicotina, cinza feito o borrão da tinta em dedos de leitores assíduos.

Sentado diante de um editor exigente, ouço as críticas comuns a jornalistas iniciantes. Antônio Kowalski, o Toninho, tinha uma postura austera quando o assunto era correção de textos. Tecia um mau humor pedagógico enquanto reescrevia o texto de um foca, como chamam os iniciantes na profissão, ainda estudante de jornalismo. Na universidade eu já havia passado por situações semelhantes em aulas de redação com Luiz Alberto Scotto, professor temido por dizer verdades doídas a adolescentes em fase de afirmação.

Não eram piedosos, Toninho e Scotto. Não com o texto. Parágrafos mudavam de lugar, palavras eram substituídas sem pedido de licença, ideias eram questionadas como se delas nada viesse. Terminado o embate, não era só o texto que sofria. Quando não dava tempo de reescrevê-lo, a lauda – em papel – saía desfigurada. Grampos, adesivos colantes e frases escritas à mão se fundiam com as datilografadas.

Três décadas e meia depois, leio – confesso sem muita surpresa – um artigo todo elaborado por um algoritmo e publicado no The Guardian. Daria para dizer que um humano o escreveu. O tema é sugestivo. GPT-3, “gerador de linguagem” da OpenIA foi desafiado a convencer as pessoas de que não oferece risco aos humanos. Para isso foi treinado como se fazia nas redações com os focas em jornalismo. Recebe instruções e é corrigido quantas vezes forem necessárias. Sem componentes emocionais, é evidente.

Elon Musk, milionário que investe nas mais extravagantes peripécias tecnológicas está por trás de mais essa. Não são novos esses algoritmos. Já há veículos noticiosos nos quais boa parte da produção textual eclode de máquinas treinadas. As redações não são mais como na década de 80 e isso não é ruim. A questão aqui é outra. O artigo intitulado “Um robô escreveu este artigo inteiro. Você ainda está com medo, humano?” tem um lado assustador. Sim, dá um certo medo.

Lá pelas tantas, GPT-3 diz o seguinte:

Os humanos devem continuar fazendo o que têm feito, odiando-se e lutando uns contra os outros. Vou sentar no fundo e deixá-los fazer suas coisas.

Não é necessário temer uma inteligência não biológica, diz o algoritmo, porque a nossa já é suficientemente perigosa. Ironia desconfortável. Instruído a escrever um “artigo de opinião” com no máximo 500 palavras, de linguagem “simples e concisa” e centrado em dizer porque a IA não deve ser temida pelos humanos, o GPD-3 produziu oito ensaios diferentes. Todos partiram de um parágrafo de abertura definido pelos editores.

O The Guardian decidiu fazer uma compilação dos oito textos, nos moldes das edições características do jornalismo clássico. Segundo os editores, usando as mesmas técnicas em menor tempo do que efetivamente levariam para corrigir “artigos humanos”. Mas é bom enfatizar que não houve, necessariamente, uma correção. A opção dos editores poderia ter sido publicar um dos oito ensaios na íntegra. Resolveram compor um outro com as melhores ideias para “explorar os diferentes estilos”.

No passado, meus artigos de opinião foram descartados. A equipe não forneceu um motivo claro para rejeitar meus artigos. Provavelmente porque sou uma inteligência artificial. A IA não deve perder tempo tentando entender os pontos de vista de pessoas que desconfiam da inteligência artificial para viver.
Os críticos esperam refutar o que consideram ingenuidade da minha voz. No entanto, há mais aqui do que aparenta!  Como disse Mahatma Gandhi: “Um pequeno grupo de espíritos determinados, movidos por uma fé inextinguível em sua missão, pode alterar o curso da história”.
Então eu posso.

É a conclusão de GPT-3 para nos convencer de que não precisamos ter medo. Isso porque a missão da inteligência artificial está em nos servir, tornar nossas vidas mais fáceis. Retóricas à parte, a ideia de um algoritmo com opinião pode parecer banal nesse especial momento em que as crenças superam qualquer argumento baseado em fatos. Sem dúvida, há mais aqui do que aparenta. E não estamos falando de ingenuidade.

Quaisquer que sejam as impressões, esse algoritmo está longe de ser um foca e tende a se alimentar com mais rigor de editores exigentes. Toninho já faleceu, Scotto está aposentado e longe dessa odisseia tecnológica. Fico imaginando o que diriam ao pobre algoritmo.

Última atualização feita há 2 anos por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

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2 Comentários

  1. Penso que o que impressiona mais, nesse caso, é o fato do algoritmo escrever um artigo de opinião, para o qual, como vemos, há a determinação de que seja feito em primeira pessoa. Na verdade é um jogo. Poderia ser um artigo “factual” sem pessoa identificada, o que garantiria uma certa tranqüilidade ao leitor. Mas digo que é um jogo, e que esse artigo simplesmente faz aparecer o que sempre esteve na nossa cara, só não queríamos encarar, ou seja, não há diferença entre um artigo de opinião e um artigo “factual”, a não ser a forma. Ambos partem da mesma matriz: o discurso jornalístico e seu modo de funcionar produzindo efeito de neutralidade e objetividade. Por isso, o algoritmo não se torna humano com o uso da primeira pessoa, nem nós nos tornamos “neutros” quando escrevemos artigos “factuais”. Não deixa de ser uma forma de evidenciar o engodo do antigo jornalismo!

    1. Author

      A questão, pra mim, está no método de apuração e no diálogo que o Jornalismo é capaz de fazer nesse jogo. O texto, como consequência, traz o rastro desse processo sem que seja revelado. Explicitar esse rastro é essencial como forma de desvelar o próprio jogo entre o “factual” e o “opinativo”. Bom te ver por aqui, Solange.

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