Sabe papo de elevador? Nem sempre é furado. Outro dia encontrei um ex-colega de universidade, também vizinho.

Você tem acompanhado a postura de Trump sobre o processo eleitoral nos Estados Unidos?

Não foi uma pergunta retórica nem uma observação aleatória para preencher o vazio do convívio em condomínios modernos. Há algum tempo não o via, meu ex-colega e vizinho. Ambos levamos a quarentena tão a sério quanto possível.

Donald Trump, comentávamos, vem desqualificando o sistema eleitoral e pondo em dúvida o voto pelos correios, um serviço tradicional que deve ser ampliado em novembro para se evitar aglomerações em locais de votação. A fraude pré-anunciada pelo atual presidente é, ela própria, uma bravata estratégica para por em confronto seus apoiadores e adversários, em um cenário no qual a reeleição parece distante.

As estratégias políticas do Trump já são manjadas. Ataca a democracia pra se fortalecer. Li que existem ameaças de grupos armados e uma preocupação das autoridades com manifestações violentas.

Avaliando a cultura política de hoje, não se pode esperar algo muito diferente diante da polarização em que vivemos. As ideias deram lugar a uma brutalidade fortuita e não há indícios de que possamos conviver por muito mais tempo nesse antagonismo perverso entre discursos de propaganda nos quais a persuasão passa pelo crivo do obscurantismo, do deboche e da perseguição.

Já não são as utopias perdidas, a questão. Perdemos completamente a vergonha e parece que nada faz sentido.

Você leu A Náusea, do Sartre? Tô me sentindo com se tudo em nossa volta fosse banal.

Dez andares depois nos despedimos. Ambos nauseados como o historiador Roquentin, personagem central do livro, diante de tantas contingências existenciais efêmeras com as quais lidamos nesses tempos sombrios. Na verdade, a política virou conversa de elevador. Quando encontramos um interlocutor, o que é cada vez mais raro, poucos segundos viram uma eternidade. O resto é confronto entre torcidas organizadas.

Convicção mais concreta eu tive ao buscar informações sobre o primeiro debate eleitoral entre Donald Trump e Joe Biden. Não esperava um diálogo de nível. No ramo da política, o negócio deixou de ser pautado por projetos faz um bom tempo. Vale a narrativa mais ofensiva, a expressão mais rude, o rosnar mais próximo dos eleitores cativos. O voto, ironicamente, tem se transformado em manifesto antidemocrático.

Brilharam no octógono da CNN o vazio e a desesperança. Trump é um boçal, Biden um neoliberal enrustido. As eleições nos Estados Unidos são uma encruzilhada em que o diabo espera por uma alma disposta a vender seu futuro. Nenhuma das estradas adiante reserva uma jornada tranquila, mas os passos de agora não pedem pegadas muito profundas.

Trecho do debate entre Trump e Biden, no qual a democracia pelo voto é contestada pelo atual presidente

Digamos que haja um delay antidemocrático no ar que respiramos. Trump brada lá, Bolsonaro bate continência aqui. O candidato à reeleição nos Estados Unidos é muito mais do que inspiração ideológica para o ex-militar fanático, evangélico ardiloso e oportunista político tupiniquim. Trump é o balão de ensaio, de novo, da ultradireita. Reeleito, consolida a propaganda perversa de violência e desinformação que o elegeu e inspira projetos de poder em todo o mundo.

Nos vemos dois anos atrás, mas não é verdade. Bolsonaro tem um olho no pleito dos Estados Unidos, claro. Só que, pra ele, as eleições municipais aqui no Brasil são muito mais impactantes. O presidente brasileiro está novamente em campo, repetindo que o judiciário deu poderes demais aos prefeitos no combate à pandemia e pedindo votos para os defensores da família (a que cabe no imaginário conservador) e da pátria (a que está sobre o tapete que cobre todas as sujeiras).

A aposta é simples. As eleições municipais no Brasil garantem uma representatividade política muito mais significativa do que a propaganda em busca de eleitores ou a falsa opulência de republicanos e democratas. Aliás, essa representatividade oferece prerrogativas incomparáveis no que diz respeito a redutos eleitorais para candidatos majoritários, como Bolsonaro. As bravatas de Trump e Biden são só folclore.

Boaventura propõe revolucionar a democracia e democratizar a revolução

Boaventura de Souza Santos tem razão. Não há Estado democrático sem sociedade democrática. E não estamos falando de voto. Sem que o debate político pule a cerca das ideologias baratas e da desinformação, as condições de convívio democrático se desfazem. Existem muitas dimensões da democracia, ele nos alerta, que não passam pela política no sentido estrito.

Para o pensador português, a dominação passa hoje por três condições essenciais: a do capitalismo, a do colonialismo e a do patriarcado. Na primeira, a economia das planilhas se sobrepõe aos valores humanos e aos direitos universais para garantir as decisões que beneficiam os fluxos de capital e as megaempresas com mais poder do que os grandes governos.

As políticas neoliberais estão a destruir as leis trabalhistas, privatizar a previdência, privatizar a saúde, privatizar a educação… isto soa familiar, não é? A receita é global. Nós vamos fazer justamente o contrário.

Boaventura também fala de um colonialismo que passa por uma espécie de poder traduzido no âmbito sociocultural como normas de padronização do pensamento, mesmo o científico. As epistemologias estão sujeitas ao poder de quem sustenta o pensamento dominante sobre quaisquer aspectos da nossa vida e decide sobre os caminhos do progresso.

As nossas universidades têm de ser descolonizadas. Isso faz parte do trabalho de revolucionar a democracia.

Por fim, o patriarcado como condição essencial da dominação constitui a parte mais visível desse estratagema. Vejamos Trump e Biden. O atual presidente não oferece espaço para negros, mulheres ou quaisquer outras formas diversificadas de representação. Biden tem como vice uma mulher negra cuja competência talvez seja compatível ao vigor geopolítico do país que quer governar. Mas é uma vice, candidata a coadjuvante. Mas poderíamos falar de Dilma Rousseff, impedida de governar pela maioria masculina e branca do Congresso Nacional brasileiro.

É preciso dar simbolicamente a ideia de que o país é diversificado.

São todas referências que transcendem o cenário político em sentido estrito. Algumas, como defende Boaventura, não passam pelo orçamento. E diante delas, ele sugere “revolucionar a democracia e democratizar a revolução”, numa proposição transitória para tornar o cenário político mais favorável a mudanças profundas. Representação e participação, por exemplo, precisam ser vistas como concomitantes. Terceirizar o voto não é mais uma alternativa. Assim como terceirizar a gestão pública.

Nos níveis municipais de gestão, as soluções podem ser mais diversificadas e contribuir para ampliar as alternativas aos problemas globais. Desde que haja ambiente para o envolvimento popular nas decisões do poder público, a democracia pode sair fortalecida para as próximas eleições majoritárias em 2022. As ruas são o espaço mais lógico de ocupação política. Mas são, também, a perspectiva de uma construção sociocultural mais coletiva e representativa. Nela se pressiona, mas também se vive.

Trump, Biden, Bolsonaro e afins se apoiam em narrativas que simulam nossas vidas. A economia brasileira nunca esteve tão fragilizada. Podem por na conta da pandemia os que quiserem. Mas nunca tivemos um governo tão desorientado. Nunca antes na história deste país. Só mesmo as redes sociais para sustentar essa panaceia.

Nas entrelinhas dos candidatos à gestão pública, é preciso ler se as planilhas estão sobrepondo os valores humanos e os direitos fundamentais, se os espaços para a participação popular são efetivos, se a diversidade está presente na composição política. Não é tudo, mas é um começo.

Um começo para amenizar a náusea de rever no poder lideranças tão arcaicas e abjetas quanto as dos Estados Unidos e Brasil de agora. Trump e Biden que se violentem o quanto quiserem. Nossa atenção tem de estar no locus onde se vive a democracia e a democracia vive.

Espero ansioso por um novo encontro fortuito de elevador que mereça registro.

Última atualização feita há 2 anos por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

Hits: 25

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *