Centenas de grupos com dezenas de milhares de integrantes, 5,13 milhões de postagens e 418,2 milhões de interações entre 1o de janeiro e 12 de outubro no Facebook. O termo “Bolsonaro” mostra o quanto as redes sociais potencializam os efeitos políticos de determinadas declarações do presidente da República. Considerando fan pages e perfis, o Núcleo Jornalismo contabilizou 8 milhões de mensagens e 3,2 bilhões de interações em pouco mais de ano e meio.

Os números fazem parte de reportagem publicada pelo veículo jornalístico cuja missão é produzir investigações a partir de dados públicos, em 15 de outubro. Intitulada “O Facebook não morreu”, a matéria apresenta como as novas estratégias da plataforma têm impulsionado um novo tipo de engajamento à rede.

Neste ano, a plataforma de Mark Zuckerberg faturou 11% a mais que no mesmo período do ano passado. São 130 milhões de usuários brasileiros, com perspectiva de chegar a 160 milhões até 2025. Só que agora, os grupos públicos e privados têm concentrado a maior parte da circulação de informações, num processo parecido com o do WhatsApp. Quer dizer: as bolhas estão ainda mais “coesas” e o algoritmo “recompensa” postagens que criam “relações entre usuários”.

Nesse ambiente, mensagens com teorias da conspiração, desinformação e “viés de confirmação” reforçam a polarização e esvaziam as linhas de tempo genéricas e abertas. Como decorrência das mudanças promovidas pela plataforma, o Facebook tem servido de protótipo para o desenvolvimento de técnicas de engajamento que reverberam pela rede em outras plataformas, incluindo o Instagram e o WhatsApp, também de Zuckerberg.

Não há vacina

No mesmo dia em que o ministro da Saúde Eduardo Pazuello foi diagnosticado oficialmente com Covid-19 e um voluntário da vacina de Oxford morreu por causa da doença, o governo federal envolveu-se em nova polêmica. Depois de anunciar a compra de doses do imunizantente produzido pela China em parceria com o Instituto Butantan, Pazuello foi desautorizado pelo presidente, que manifestou-se publicamente contra a medida.

Segundo a Folha de São Paulo, o recuo de Bolsonaro deu-se em função das reações de apoiadores nas mídias sociais. Em princípio, o presidente não ofereceu resistência à assinatura do protocolo que estabelece a intenção do governo federal na compra do imunizante. Mas, como sabemos, as redes sociais são a base de orientação das ações de Bolsonaro e, nesse caso, o posicionamento ideológico anticomunista e o peso político do governador de São Paulo João Doria, adversário nas eleições presidenciais de 2022, escancaram ainda mais a falta de critérios técnicos no combate à pandemia.

A reportagem da Folha reforça que Pazuello e Bolsonaro articularam o discurso para parecer que houve um equívoco de interpretação no anúncio do ministério da Saúde. E isso está evidente na postagem do presidente em seu perfil no Twitter. Ao qualificar a vacina como “chinesa de João Dória”, Bolsonaro enfatiza as razões político-ideológicas de sua decisão e reforça sua ignorância sobre como são os procedimentos em casos como o que estamos enfrentando.

Postagem do presidente revela sua falta de conhecimento e suas razões político-ideológicas

Primeiro é bom reforçar que não há qualquer perspectiva de uma vacina em larga escala no curto prazo. As previsões mais otimistas são para a metade do ano que vem. Isso porque, mesmo que as vacinas em fase avançada de testes tenham sua aprovação pelos órgãos de controle sanitário nos países nos quais estão sendo monitoradas, há uma série de questões ainda a resolver. Desde a logística de distribuição, passando pelas estratégias de aplicação, até a comprovação de efetividade dos imunizantes.

Bolsonaro já afirmou que a vacinação no Brasil não será obrigatória, ainda que haja brechas jurídicas para que prefeitos e governadores reivindiquem essa decisão. Mas nem é esse o problema. A Anvisa, que teve de responder ao imbróglio criado pelas recentes declarações do presidente, ainda não recebeu qualquer pedido de aprovação para as vacinas em teste no Brasil e mantém a postura de não acelerar as análises necessárias para a liberação dos medicamentos.

Bolsonaro entra em uma área sobre a qual nem seu ministro da Saúde conhece plenamente. Dizer que o “povo não será cobaia”, que a vacina precisa de comprovação científica (a mesma que contesta o uso da cloroquina para tratamento de Covid-19) e depende de certificação pela Anvisa é uma tática discursiva já manjada de desviar o foco central do debate. A vacina de Oxford, financiada pelo ministério da Saúde, está na mesma fase de testes que a “chinesa do Dória” e vai usar o “povo” como “cobaia”. Porque é assim que funciona na produção de imunizantes.

A última etapa da produção de vacinas é a aplicação em massa e o monitoramento para se verificar a resposta de imunização em grande escala, com a diferença de que os protocolos de segurança e eficácia já estarão certificados. Trocando em miúdos, além de não termos uma vacina com a efetividade desejável nos prazos anunciados no âmbito político, se isso ocorrer sem os passos necessários corremos o risco de oferecer à população um placebo, no sentido de não atender à demanda necessária para livrar as pessoas dos riscos do SARS-Cov 2. E tanto faz de onde venha.

Redes de desinformação

No rastro dessa trilha enganosa deixada pelo presidente da República suas redes de apoiadores se deliciam com um universo de desinformação facilmente desmontado. A ligação entre João Doria e a empresa chinesa Sinovac foi um prato cheio para se gerar uma série de teorias conspiratórias a respeito da vacina do novo coronavírus. Uma delas diz respeito ao fato de a assinatura do contrato ter sido feita supostamente em agosto de 2019, numa alusão de que já haviam planos comunistas da China para disseminar a doença e oferecer a cura. Isso em parceria com Doria.

O presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, hoje aliado do governo Bolsonaro, chegou a postar em seu perfil do Twitter uma indagação que induzia as pessoas a pensarem na falsa conspiração. Jefferson, cuja conta na plataforma está “retida”, é um dos investigados na operação que apura o financiamento de informações enganosas e eventos antidemocráticos no Brasil. Em 16 de junho, a peça de desinformação tinha mais de 87 mil compartilhamentos, segundo a agência de checagem Aos Fatos. Na verdade, em agosto de 2019, Doria tinha iniciado a aproximação do governo de São Paulo com a China, não assinado o contrato com a empresa produtora da Sinovac.

Roberto Jefferson tem seu perfil bloqueado no Twitter por espalhar informações enganosas

Outras peças de desinformação circularam envolvendo João Doria, a China e a vacina, mas relacionadas a efeitos menos dramáticos. Não é o caso de outra teoria da conspiração que relaciona a “vacina chinesa” com planos de controle social, cujo impacto ainda reverbera entre os mais desavisados, mesmo com todos os alertas de que as informações não procedem.

Os chineses estariam implantando microchips nas vacinas em teste para usar uma tecnologia de rastreamento e colher a “identidade biométrica” da população, como forma de ampliar o império ditatorial. A desinformação parte de fontes verdadeiras, mas descontextualizadas e sem relação entre elas, para criar uma narrativa verossímil. Mesmo desmentida pelo Estadão Verifica, entre outras agências de checagem, continua circulando.

Tecnologia de controle social através da vacina, outra teoria conspiratória

Jair Bolsonaro é muito bem assessorado nessa relação com redes de desinformação e parece ter conseguido o espaço de que precisa para continuar atuando no mundo das conspirações. Ao criar falsos dilemas, usar o discurso belicoso que sempre teve, fomentar discussões polarizadas e promover ideias fundamentalistas, estúpidas até, o presidente da República ganha espaço na mídia tradicional e compra briga com jornalistas para ampliar o impacto de seu discurso.

As bolhas informacionais, ampliadas por estratégias de negócio de mídias como o Facebook, são um prato bem servido de ignorância e falta de senso do ridículo. Nas bolhas às quais pertence, Bolsonaro usa a retórica de ser mal interpretado pela imprensa, “desmente” as afirmações baseadas em fatos e distorce a realidade a seu favor. O mundo é uma grande conspiração comunista, as instituições estão repletas de esquerdistas (mesmo os de direita, como Doria) e são todos inimigos da pátria. A vacina “chinesa do João Doria” faz parte desse delírio.

Última atualização feita há 2 anos por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

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