É provável que tenhamos pizza.

Comissões parlamentares de inquérito não costumam oferecer prognósticos confiáveis quando instaladas. São mais ou menos como novelas em horário nobre: dependendo do humor da audiência ou da performance de personagens secundários, a história pode tomar rumos não previstos. O desfecho pende ao sabor das circunstâncias. Mas, no caso da CPI da Covid-19, o que as circunstâncias apontam?

Primeiro, pouco importa se estamos evidenciando corrupção em um governo que se propunha a reserva moral da política brasileira. Só acreditava nisso quem traz no voto uma devoção fundamentalista em figuras messiânicas. Mais cedo ou mais tarde (e olha que demorou para a ficha cair) esse perfil histórico da família Bolsonaro seria estampado no currículo do presidente. Não há voto de vingança que saia impune. Um cuidado que as esquerdas precisam tomar.

São igualmente ilustrativas as sessões públicas da CPI, onde testemunhas e acusados são inquiridos em meio a discursos políticos dirigidos às próprias bases eleitorais. Ilustrativas porque são reveladoras demais. O objeto ali é a imagem que cada parlamentar faz de si, os compromissos públicos que assumem, as narrativas que constroem. O público e o notório só combinam com “investigações” que levem a lugares previamente desejados. Já vimos esse filme com a Lava Jato.

É fato, contudo, que a CPI do Senado nada se compara à linha judicial de magistrados políticos, na qual convicções são suficientes para impor condenações com interesse meramente eleitoral. Não há voto de vingança que saia impune, lembram? Ou Lula não estaria assombrando os moralistas de plantão de novo. No Senado, ao que tudo indica, o que se pretende é construir um cerco onde o governo Bolsonaro deve sangrar até a anemia profunda, de modo que não haja transfusão para recuperá-lo plenamente. As estocadas da CPI têm mostrado que, sim, o governo sangra.

Especula-se que Bolsonaro esteja com algum problema de saúde. Foi internado às pressas no Hospital das Forças Armadas. Já havia passado mal em um evento, tinha mostrado uma apatia fora do normal diante de perguntas impertinentes da imprensa, até convidou jornalistas para rezar um “pai nosso”. Talvez estejamos diante de sintomas tardios provocados pela facada que o alçou à presidência da República. Talvez. Certo mesmo é que as reações intempestivas de Jair Bolsonaro estão esmaecendo. O cerco sobre ele tem na CPI o foco das atenções. Mas há um horizonte de instituições se fechando em torno do governo para aprosioná-lo no próprio dilema.

Hospitalizado, Jair Bolsonaro rememora o enredo emocional com dividendos políticos. Não que o problema de saúde seja forjado, como até hoje se teoriza sobre a facada pré-eleitoral. Dessa vez, simbolicamente, a internação é sinal de total isolamento. A figura abjeta, de alguém nada empático com quem não é de seu círculo, está enclausurada em um corpo sujeito às pressões da CPI do Senado e das instituições que, parece, resolveram reagir. E isso inclui as Forças Armadas. A divisão de forças no governo militar de Bolsonaro está na própria cúpula. Seu vice tem sido uma sombra nem sempre silenciosa.

Quase nada tem adiantado a insistência dos senadores governistas na CPI em envolver nas investigações os supostos desvios de verba federal na aplicação de recursos contra a Covid-19 nos estados e municípios. A cada sessão pública Bolsonaro é servido em fatias de sabores distintos, temperadas com especiarias cuidadosamente escolhidas. Se pode dizer que existe um certo requinte no preparo da massa e na escolha do cardápio. A CPI do Senado já tem elementos suficientes para um relatório incriminador. Mas vai postergá-lo ao máximo.

É provável que tenhamos pizza porque o impeachment talvez não seja a resposta institucional pretendida. Bolsonaro foi irresponsável na condução das políticas de saúde, já há indícios suficientes para chegar à conclusão óbvia. A questão é mais estratégica que emocional. Fazer derreter a confiança na reserva moral que Bolsonaro dizia ser pode levá-lo novamente ao baixíssimo clero de onde veio. Sem torná-lo inelegível pela via do impeachment, talvez se possa enterrar novamente, e por um tempo mais longo, o retrocesso das vozes que o acompanham e os fantasmas que seus admiradores insistem em manter vivos.

É uma aposta embalada por pizzaiolos de diferentes matizes políticas e ideológicas.

Última atualização feita há 1 ano por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

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