Em até uma década, o novo coronavírus tende a ser menos letal que a gripe comum. Pesquisadora da Universidade Emory, nos Estados Unidos, Jennie Lavine é a principal autora do estudo publicado na Science em fevereiro deste ano[1]O estudo completo, intitulado Immunological characteristics govern the transition of COVID-19 to endemicity pode ser acessado aqui (em inglês). que sugere essa conclusão. Com base em modelos estatísticos, comparando o comportamento do SARS-Cov2 com o de outros coronavírus, o estudo propõe que tudo depende da velocidade de propagação do vírus e da eficácia dos planos de vacinação contra a Covid-19. Quanto mais rápidas forem a imunização e a restrição de circulação, melhor.

Dados imunológicos e epidemiológicos dos coronavírus endêmicos, como o H1N1 por exemplo, foram projetados em condições nas quais o novo coronavírus circula. A equipe de Levine está convicta de que vamos conviver com sintomas leves da doença no futuro e com baixíssima taxa de letalidade. Em um certo aspecto, os “parentes” próximos do SARS-Cov2 mostram que o cenário tende a ser menos dramático com o passar do tempo. Contudo, as medidas de restrição e a vacinação em massa são essenciais para encurtar o tempo de transição entre a pandemia que enfrentamos agora e a doença endêmica leve projetada nos estudos.

As evidências são de que o bloqueio imunológico que reduz a doença é duradouro, mesmo que a proteção contra infecções não seja. Isso quer dizer que a infecção em crianças, mais resistentes a sintomas graves, tende a constituir uma base de proteção ao longo da vida que reduz os riscos de internações e mortes. Essa concepção modifica a estrutura dos programas de vacinação e a obrigatoriedade de se investir permanentemente na imunização em massa. O problema está nas estratégias atuais de combate à pandemia.

Semanas antes da publicação, o diretor da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanon, fazia um alerta contra o que chamou de “nacionalismo das vacinas”[2]A declaração de Adhanon foi destaque no site de notícias da ONU, em matéria que pode ser lida aqui (em inglês).. Em oito meses, desde então, os programas de vacinação continuam privilegiando os países ricos em detrimento de uma campanha global para acelerar a transição proposta pela equipe de Lavine. Das 5,43 bilhões de doses de vacina aplicadas na população mundial, apenas 1,8%[3]Os dados foram colhidos no portal Our World in Data em 03 de setembro, às 16:05h. Diariamente os números são atualizados. chegaram aos países de baixa renda. Mais da metade de todas as doses foram compradas por países que detêm apenas 16% da população mundial[4]Gavin Yamey dirige o Centro de Impacto de Políticas em Saúde Global na Univerisidade de Duke, nos Estados Unidos, e defendeu em artigo publicado na Nature, também em fevereiro deste ano, a … Continue reading. A imunização de poucos países, afirmam especialistas, é insuficiente para conter a doença com a agilidade que precisamos.

Modelo de produção e distribuição concentrado

Vencer o “nacionalismo das vacinas” ainda não está no horizonte. Luis Eugênio Portela Fernandes de Souza, da Universidade Federal da Bahia, e Paulo Marchiori Buss, da Fundação Oswaldo Cruz, enfatizam que o controle da pandemia depende de uma distribuição igualitária dos imunizantes[5]O estudo foi divulgado nesta semana pela Agência Bori, especializada em divulgação de ciência, e pode ser lido na íntegra aqui.. Em artigo publicado na edição recente do Cadernos de Saúde Pública, os pesquisadores avaliam que a quebra de propriedade intelectual e a transferência de tecnologia na produção são essenciais para uma mudança na concentração dos recursos disponíveis. Desde outubro do ano passado a ideia vem sendo discutida, mas a maioria dos países, incluindo o Brasil, tem se manifestado contra.

No atual modelo de produção e distribuição, concentrado em poucos laboratórios localizados em um punhado de países, as consequências têm sido apontadas como trágicas. De 01 de março até agora, só nos Estados Unidos, estima-se que mais de 15 milhões de doses foram jogadas fora. Esses dados, tornados públicos pela NBC News[6]Mais detalhes podem ser conferidos aqui (em inglês)., não abrangem todos os locais de armazenamento nem explicam as razões do desperdício. Se comparada ao número de doses aplicadas por lá (367,32 milhões)[7]Dados obtidos no site da Organização das Nações Unidas em 03 de setembro às 17:30h), pode parecer proporcionalmente irrelevante. Contudo, o desperdício equivale à imunização de toda a população da República do Congo com três doses. E o país africano tem apenas cerca de 180 mil doses aplicadas até agora.

Dentre os fatores que causam a perda de vacinas estão as constantes quedas de energia elétrica nas regiões de armazenamento, especialmente das que dependem de temperaturas negativas extremas, e o desperdício de frascos com doses não usadas no mesmo dia por falta de procura ou de gestão. Isso em países já suficientemente abastecidos. No caso do Brasil, que só recentemente chegou a um terço da população imunizada, as crises hídrica e energética são fatores preocupantes, tanto para se evitar desperdícios similares ao dos Estados Unidos quanto para o tratamento intensivo de pacientes internados.

A disparidade nos programas de imunização aciona também um alerta econômico. De acordo com o Escritório Nacional de Pesquisa Econômica (EUA), o encolhimento da economia por causa da lentidão no combate à Covid-19 deve alcançar os 9 trilhões de dólares nos próximos anos. A solução seria investir na distribuição igualitária de vacinas e oferecer aos países menos favorecidos a ajuda necessária[8]A análise está no estudo dos pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia, já indicado aqui para superar a crise sanitária. O que inclui a possibilidade de diversificar os pontos de produção e distribuição.

Imunologistas e epidemiologistas consideram imprescindível uma mudança no esquema vacinal porque o permanente contágio pelo vírus faz surgir novas cepas. Até aqui, as mutações não têm modificado a letalidade da Covid-19. Os pesquisadores temem uma variante que fuja ao cerco das vacinas já produzidas, o que amplificaria as dificuldades de produção e, especialmente, de distribuição. No caso de uma nova cepa resistente às vacinas, é bom lembrar, nem a terceira dose, usada como reforço em países suficientemente abastecidos, daria conta.

O especialista em bioestatística da Universidade da Pensilvânia (EUA), Jeffrey Morris, considera improvável uma variante que fuja das características estudadas até agora[9]Os detalhes podem ser lidos aqui.. Para ele, não há porque imaginar uma variante mais letal ou que ofereça mais riscos à saúde porque a trajetória das mutações do vírus indica o contrário. Ainda assim, as medidas de restrição e a vacinação em massa são, no momento, a única alternativa plausível. Não por acaso, as taxas de hospitalização de vacinados ficam em torno de 0,02% em países como Estados Unidos e Israel. E as de infecção não passam de 0,54%.

Última atualização feita há 1 ano por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

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Referências

Referências
1 O estudo completo, intitulado Immunological characteristics govern the transition of COVID-19 to endemicity pode ser acessado aqui (em inglês).
2 A declaração de Adhanon foi destaque no site de notícias da ONU, em matéria que pode ser lida aqui (em inglês).
3 Os dados foram colhidos no portal Our World in Data em 03 de setembro, às 16:05h. Diariamente os números são atualizados.
4 Gavin Yamey dirige o Centro de Impacto de Políticas em Saúde Global na Univerisidade de Duke, nos Estados Unidos, e defendeu em artigo publicado na Nature, também em fevereiro deste ano, a doação de doses de vacina para países mais pobres sob pena de tornar ainda mais profunda a crise sanitária provocada pela pandemia. O artigo pode ser lido na íntegra aqui (em inglês)
5 O estudo foi divulgado nesta semana pela Agência Bori, especializada em divulgação de ciência, e pode ser lido na íntegra aqui.
6 Mais detalhes podem ser conferidos aqui (em inglês).
7 Dados obtidos no site da Organização das Nações Unidas em 03 de setembro às 17:30h)
8 A análise está no estudo dos pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia, já indicado aqui
9 Os detalhes podem ser lidos aqui.

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