Presidente Jair Bolsonaro saúda manifestantes em Brasília, nas manifestações de apoio a ele no dia da independência. O discurso do presidente foi de ruptura e pode ter representado o suicídio político no atual cenário.

Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Encontrei o livro ainda intocado numa prateleira da biblioteca da universidade. Único exemplar perdido entre pares sobre Filosofia, trazia um título interessante e no escopo dos conceitos ainda em voga no universo gerencial. Pensei, seria uma dessas publicações sobre gestão inscritas no pensamento ocidental das organizações capitalistas.

Abri Tratado da Eficácia como quem desconfia. François Julien não me era um nome conhecido. Fui à orelha do livro para uma rápida consulta. O autor é um sinólogo, pesquisador especializado na China Antiga, um estudioso dos modos de ser da civilização exótica e ainda incompreensível aos olhos do ocidente.

O livro estabelece diferenças na forma como ocidentais e orientais criaram perspectivas de futuro ao determinar modos particulares de alcance a metas e objetivos. No ocidente, a realidade é precedida por modelos projetados para subsidiar o planejamento de ações que efetivem resultados.

Já o pensamento chinês antigo concebe a eficácia como “consequência de um processo”. Os meios para alcançá-la não têm como ser estabelecidos a priori porque dependem das circunstâncias. Dependem do que os estrategistas chineses entendiam como potencial de situação. E esse conceito nada tem a ver com o acaso.

Ler o cenário para entender como os fatos se encadeiam oferece, circunstancialmente, uma perspectiva de “não-agir”. Potencialmente, a eficácia resulta dessa circunstância. Se as coisas caminham para onde se pretende, não é necessário intervir. Basta deixar que caminhem.

Isso não quer dizer que se deva deixar a vida nos levar. A ideia por trás dessa premissa tem sentido na capacidade de análise dos acontecimentos, de interpretação quanto ao tipo de esforço necessário para que eles se coadunem com nossas expectativas. Nesse sentido, “não-agir” é uma forma de ação, uma resposta ao que se pretende enquanto estratégia para se alcançar resultados propostos.

Lembrei do Tratado da Eficácia ao acompanhar as manifestações deste 7 de setembro. O “não-agir” caiu como uma luva. Tomadas por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro contra instituições democráticas, as ruas de mais de uma centena de cidades brasileiras se vestiram de um verde e amarelo azedo, pouco representativo do ponto de vista da eficácia.

Antes das manifestações, pesquisas e avaliações davam conta de que o apoio à dissonância cognitiva do “líder máximo” do país vinha de bolhas bolsonaristas e que a maior parte da população estava desconectada da pauta presidencial no dia da independência. Os reais problemas não fazem parte dessa agenda. 

Isso ficou evidente no fim do dia, quando a ressaca do feriadão impõe a retomada do enfrentamento aos dilemas diários, em contexto repleto de crises. Fica a impressão de que o presidente da República esticou a corda em volta do próprio pescoço. Não intimidou nem entregou o que vendeu ao longo dos dois meses em que usou dinheiro dos contribuintes nas suas ações eleitoreiras.

Acuado, Jair Bolsonaro criou um factóide agressivo em diálogo com suas redes, espalhando notícias falsas sobre supostas movimentações de caserna para pôr ordem no país, supostos pedidos de prisão e afastamento de ministros do judiciário, uma bravata atrás da outra e que culminou com um “discurso histórico” na Avenida Paulista. Pelo menos na descrição do filho Flavio Bolsonaro no Telegram.

O dia da independência (assim mesmo, em minúsculo) no Brasil foi eficaz pelo “não-agir” da absoluta maioria da população, imersa nos problemas econômicos, sanitários, sociais, de toda a sorte, no terceiro pior PIB da América do Sul. 

Bolsonaro age contra ele mesmo. As instituições, agora, só têm de confirmar o posicionamento que a Constituição lhes confere. Basta marcar posição no lugar em que estão, sem necessidade de movimentos de resistência em contraposição ao suicídio político do presidente.

O bilhete está assinado e foi posto na cabeceira. Como ensinam os estrategistas da antiga China, só é preciso deixar uma pequena rota de fuga, para dividir as opções. A morte política autoinfligida já parece inevitável. Mas a prisão no próprio calvário não está descartada.

Última atualização feita há 1 ano por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

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