A negligência na distribuição de vacina em regiões mais pobres é apontada como causa para o surgimento de novas variantes de Covid-19. A Ômicron ganhou notoriedade mundial pela preocupação com seus efeitos na pandemia, mas é preciso reconhecer que ela é fruto do descaso político com a imunização igualitária para se evitar novas mutações do coronavírus

Não precisamos de doses de reforço universais. Precisamos alcançar os não vacinados”.

A ideia por trás da declaração é a seguinte: não há indícios de que adultos que não tenham comorbidades ou não ponham em risco pessoas próximas por causa do trabalho precisem de uma terceira dose de vacina contra a Covid-19. Principalmente quando as regiões mais pobres, mesmo em países avançados na imunização contra o coronavírus, estão em desvantagem nessa corrida.

Dois cientistas estadunidenses que já fizeram parte de equipes de pesquisa e revisão de vacinas na Food & Drug Administration (equivalente à Anvisa) fizeram esse alerta na Lancet,revista renomada e especializada em saúde. Philipe Krause e Marion Gruber sustentam que as vacinas são bastante eficazes e têm demonstrado boa resposta imune em casos moderados e graves. E nos casos leves, a queda na imunidade pode estar relacionada à variante Delta, prevalente em boa parte dos países.

Para os pesquisadores, que assinam um artigo no Washington Post (em inglês) acompanhados pelo professor e pediatra Paul Offit, a decisão de fornecer uma terceira dose a todos pode, inclusive, prolongar a pandemia. “Os recursos e a energia”, dizem, devem ser direcionados para agilizar a imunização global. Manter os níveis de imunidade altos em quem já completou o ciclo não leva à imunidade coletiva.

O debate é importante especialmente agora, quando uma nova variante, sobre a qual se sabe muito pouco, promove novas medidas de restrição e fechamento de fronteiras. “Para aqueles que não precisam de um reforço imediato, pode haver uma vantagem em esperar até que um reforço mais alinhado com as variantes circulantes esteja disponível”, sugerem.

São três vacinados a cada 100 pessoas nos países mais pobres. Não só na África.

Se tem algo exaustivo nos discursos de Thedros Adhanom, diretor-geral da ONU, é a insistência em alertar para a desigualdade nos níveis de vacinação contra a Copvid-19. De acordo com a Universidade de Oxford, os países mais pobres têm cerca de 3% de pessoas imunizadas.

Adhanom reitera que não faz sentido a aplicação de uma terceira dose em pessoas saudáveis, quando profissionais de saúde em vários lugares carentes do planeta ainda não viram sequer uma seringa. Já comentamos aqui a necessidade de manter os padrões de vigilância aos procedimentos de controle sanitário enquanto se trabalha para imunizar o mais rapidamente possível a população. Ainda não se sabe com certeza a proporção adequada de vacinados para se chegar ao controle definitivo da pandemia.

O problema é muito mais político do que científico. Uma nova variante, como a Ômicron, só se desenvolve em lugares com alto potencial de contágio, onde o coronavírus circula sem os cuidados necessários nem processos eficientes de imunicação. A África do Sul é um exemplo. De acordo com o Our World in Data, até ontem, o país tinha cerca de 24% da população totalmente imunizada (gráfico abaixo).

Gráfico publicado pelo Our World Data, de acordo com o percentual de vacinados com ao menos uma dose de vacina contra a Covid-19

Ao alertar para a existência de uma nova variante, a África do Sul expôs o grau de despreparo das lideranças políticas globais para lidar com a situação. Fechamento de fronteiras, incentivo a doses extras de vacina no próprio território e um tapinha nas costas dos cientistas que trabalham em locais de alto risco para descobrir o quanto antes as respostas de que precisamos foram as ações imediatas dos dirigentes mundiais.

O cenário se replica em diferentes escalas por praticamente todos os países desenvolvidos. Questões ideológicas, problemas de logística e necessidades econômicas tendem a desconsiderar uma parte menos privilegiada da população . Além disso, os governos começam a retroceder nas medidas de afrouxamento tomadas em um momento de suposta superação da pandemia.

“Paciência é crucial”. Serão semanas de incertezas.

Não se pode negar, a variante Ômicron representa um “risco global muito alto”. A Organização Mundial de Saúde, ao tratá-la como preocupante, chama a atenção para os cuidados já bastante conhecidos. E os cientistas pedem paciência. É preciso tempo e investigação cuidadosa para se chegar a conclusões que nos dêem respostas.

Uma das preocupações iniciais dos pesquisadores foi o indício, mostrado no sequenciamento da nova variante, de que ela substituiu muito rapidamente outras já existentes. Os novos casos provocados pela Ômicron já se multiplicam na Europa. Mas essa “explosão” não significa, segundo os especialistas, que ela seja mais “perigosa”.

De qualquer modo, existe a espectativa de que a proteção das vacinas sofra uma ligeira queda, mais acentuada talvez, do que as provocadas pela Delta. O que está em jogo agora é observar o comportamento do vírus em lugares onde o processo de imunização está mais adiantado. Por isso a paciência. Os cientistas não têm dúvidas da rápida circulação da Ômicron por todo o planeta. A dúvida está no impacto que ela vai provocar em lugares onde a pandemia está mais controlada.

Última atualização feita há 10 meses por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

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