Da propaganda enganosa ao metaverso, a desinformação cresce ao gosto dos investidores no mercado especulativo. Fragmenta a realidade e põe em risco a democracia

Desinformação é um bom negócio. Não seria exagero supor que é o melhor negócio para o capital improdutivo, designação dada pelo economista Ladislaw Dowbor para descrever as estratégias do sistema financeiro que desidratam a produção e o trabalho.

A tese de Dowbor é a de que o avanço das desigualdades, a depredação galopante dos recursos naturais e o enfraquecimento dos sistemas políticos são fruto da transformação do capitalismo em um grande cassino global.

Um dos pontos centrais dessa tese está na hiperconcentração das informações sobre os mercados e sobre nossas vidas pessoais. Somam-se a esse ponto uma série de indicadores que revelam a incapacidade do sistema de cumprir com suas promessas de progresso econômico.

Mudanças no cenário exigiriam uma outra postura nas relações de produção, de combate ao “rentismo” e da caracterização do trabalho. Em síntese, não haveria resposta possível dentro do próprio sistema.

A desigualdade não se justifica quando confrontada com o potencial econômico do planteta. Portanto, a má distribuição de renda e de oportunidades seria fruto de uma certa hegemonia na percepção do lucro pela especulação. Percepção ancorada, claro, pelas esferas de poder no Estado.

Entre metaversos, fórmulas mágicas de riqueza, nichos de crença conservados em bolhas, posturas autoritárias e a transformação do direito em mantra de liberdades individualistas existe uma indústria lucrativa, pronta para desacreditar qualquer evidência sobre os fatos.

É nesse capitalismo transformado que a indústria da desinformação avança.

Propaganda enganosa lucrativa

“O fim do Brasil”

Felipe Miranda (Empíricus)

Sintética e eloquente, a frase é título do relatório que virou livro, escrito em 2014 pelo “estrategista-chefe” Felipe Miranda da Empíricus, uma agora famosa “casa de análise financeira”. E de que “fim” trata a frase? O de um país que, supostamente, estava entrando numa recessão econômica profunda por ineficiência do Estado.

A saída para driblar as perdas financeiras diante do cenário? Barganhas no sistema financeiro, investimento em dólar e por aí vai. Nada, uma linha sequer, tratando de produtividade, trabalho ou algo do gênero.

Toda a influência do CIO transformado em guru está na “mágica” de lidar com o dinheiro para fazer dinheiro. Um tipo de investimento que beneficia quase que exclusivamente o nariz do investidor para preservar o faro em “ativos” exponencialmente lucrativos.

Na base da propaganda enganosa, a Empíricus vem acumulando derrotas judiciais que afetam em quase nada seus “negócios”. Quem não lembra da redatora Betina Rudolph e seu falso patrimônio de R$ 1 milhão acumulado em três anos, depois de um investimento de R$ 1,5 mil?

Essa prática virou rendimento para a Empíricus, que tem feito acordos judiciais generosos em multas por disseminar falsas esperanças de enriquecimento. As campanhas com frases de efeito do garoto-propaganda reconhecido como influenciador financeiro atraem, iludem e geram um lucro que compensa as punições, por maiores que sejam.

Nas trapaças persuasivas sutis da Empíricus estão o verdadeiro sentido de “O fim do Brasil”: transformar a crise política em “rentismo” e fazer da análise um catalisador de mudanças no foco de benefícios que o sistema oferece.

A propaganda enganosa é a alma do negócio.

Futuro sombrio para a democracia?

“O apocalipse da informação”

Aviv Ovadya (Universidade de Michigan)

Alerta profundo sobre a fragmentação da realidade como nunca se viu antes, a frase de Aviv Ovadya, chefe do Centro de Responsabilidade de Mídias Sociais da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, expressa um futuro sombrio para a democracia.

O “infocalipse” pressupõe uma grande oporunidade para quem quer “ganhar dinheiro” ou “manipular o público”. Certos mercados e certas lideranças são tentados a oferecer nichos de informação falsa que cabem nas crenças de públicos específicos sobre aspectos da realidade que não passam, necessariamente, pelo crivo de verificação.

Reportagem do Núcleo Jornalismo mostra, por exemplo, a “rede social” exclusivamente tupiniquim Pátria, que conta com plataforma de vídeo, aplicativo de mensagens e um falso banco, numa intrincada teia de relações com militares e com o Governo Federal. A CPI da Covid no Senado chegou a destrinchar um ritual semelhante, lembram?

Nos moldes da Parler, rede estadunidense usada para articular a invasão ao Capitólio no início do ano, Pátria revela um ecossistema sofisticado de abastecimento dos serviços digitais para públicos engajados, com ideias conservadoras e autoritárias.

Esse sistema é parte de uma estratégia mais robusta que a usada pela Empíricus. Mas ao movimentar uma rede de desinformação, os protagonistas identificados nesse ritual também têm sido punidos em proporção bem inferior aos benefícios que colheram.

Steve Bennon, o principal articulador da campanha de Donald Trump e de boa parte das políticas de extrema direita espalhadas pelo mundo, foi banido de mídias pertencentes às bigtechs. Mas recebeu todo o quinhão publicitário a que tinha direito pelo engajamento em suas publicações.

Como isso impacta em nossas vidas? Basta ver a quantidade de delegados eleitorais recém nomeados nos Estados Unidos que estiveram envolvidos na campanha para difamar o sistema eleitoral e a democracia pelo voto.

A aprovação de um ministro para a corte máxima do judiciário brasileiro que considera sua carreira um “passo para um homem e um salto para os evangélicos” é outro indício. O representante religioso equipara a Bíblia à Constituição como pilar de julgamento moral. O mercado de crenças está se consolidando.

André Mendonça, agora ministro do Supremo Tribunal Federal, considera que o Brasil será “terrivelmente” evangélico em dez anos. Graças ao “pai, todo poderoso,” ecossistema de mídia que as igrejas construíram às custas do Estado laico.

O “infocalipse” corroi os pilares da democracia.

Desigualdade que aniquila

“Último bestião de realidade confiável”

Louis Rosenberg, cientista de Realidade Aumentada

Deslocada de contexto, a frase de Louis Rosenberg, desenvolvedor do primeiro sistema de Realidade Aumentada, pode parecer um desses clichês contra a distopia dos ambientes virtuais que usamos cotidianamente. Mas é um aviso honesto a respeito dos riscos que corremos.

Em artigo publicado na BigThink, uma revista digital sobre soluções em diferentes áreas, Rosenberg descreve como a tecnologia pode nos empurrar de “nossas próprias bolhas de informação” para “nossas realidades personalizadas”.

Ao tratar do metaverso, uma rede imersiva de simulações anunciada como “nova plataforma” da Meta (ex-Facebook), o cientista mostra certo ceticismo. O ambiente tóxico das mídias sociais tende a ganhar dispositivos nos quais estaremos imersos em nossas próprias crenças.

Nesse mundo metafórico talvez seja possível uma convivência em que cada indivíduo molde a sua própria realidade, sem consensos sociais. É como se pudéssemos “apagar” todas as coisas que não cabem no que pensamos ou desejamos. Incluindo as pessoas.

Para Louis Resenberg, o metaverso condensa o perigo de ruptura com o que ainda guarda nossa possibilidade de confiar no que sabemos sobre a realidade. É preciso aprender com os “malefícios” causados pelas mídias sociais, ensina, para evitar o aprofundamento de um tipo de desigualdade que aniquila quem não pertence à realidade arquitetada por indivíduos “privilegiados”.

Não por acaso, o Facebook (vamos chamá-lo assim para manter os laços com a realidade das denúnicas que pesam sobre a empresa) vem sendo investigado por manipular, omitir ou (o que é pior) desdenhar dados que poderiam ajudar seus sistemas de Inteligência Artificial a compreender vieses de confirmação e evitá-los.

“O metaverso pode fazer a realidade desaparecer”, conclui Odavya.

Da propaganda enganosa ao metaverso, a desinformação como negócio cresce ao gosto dos investidores no estilo da Empíricus, só que mais perniciosos (se é possível dizer isso). As evidências que colocam os seres humanos em diálogo com os problemas que precisamos enfrentar não parecem mais tão necessárias.

E esse é o problema central, do qual estamos insistentemente fugindo: quando a realidade é fragmentada e as pessoas desistem de compreender como ela é representada, sugere Aviv Odavya, a democracia perde valor.

Última atualização feita há 2 semanas por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

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