Sempre que sobram espaços em branco em produtos jornalísticos, usamos o “calhau”. Pode ser um anúncio barato ou autorreferente, uma nota de improviso, um texto guardado na gaveta, não importa.

O “calhau” nos salva dos imprevistos ou da “incompetência” de não termos conseguido dar conta de preencher o espaço na produção de informações jornalísticas relevantes. Jair Bolsonaro é hoje o “calhau” de toda a grande imprensa brasileira.

As declarações do presidente são tipo anúncio barato ou autorreferente. Sabe aquela propaganda que você vê ou ouve e reconhece nela um certo deslocamento? Como se ela só estivesse ali porque não tinha outra coisa mais interessante para pôr no lugar?

Essa é a sensação quando aparece uma frase do presidente em destaque. A resposta de Bolsonaro sobre a efetividade das vacinas contra a Covid-19 na diminuição de mortes e internações é um desses casos anedóticos. “Tu é que tá dizendo”, vociferava ao repórter como se fosse autoridade no assunto. E esse tipo de reação tem levado a agressões cada vez mais corriqueiras a jornalistas.

Bolsonaro tem razão em uma coisa, nesse caso: o Jornalismo é a voz da verdade incômoda. Não porque fala por si mesmo, mas porque revela coisas importantes, as quais gente como ele não quer saber e tem raiva de quem sabe. E isso é bem mais sério do que parece.

O presidente da República sempre foi tratado pela imprensa como “polêmico”. E não é nada disso. As coisas que ele diz, como se liberdade de expressão e de pensamento fossem farinha do mesmo saco, merecem repúdio. Porque são autoritárias, agressivas, depreciativas para o cargo público de onde fala.

Durante o regime de exceção imposto pelos militares no Brasil, o jornalismo tradicional buscou superar a censura com criatividade. A “imprensa nanica”, de circulação clandestina ou dirigida a públicos engajados na resistência à ditadura, também ajudou a revelar o que não se podia publicar. O problema hoje é outro.

Os jornalões e jornalecos, desdobrados em muitas mídias, optam por dizer o que não importa, por insistir em negar declarações sem relevância. Escolheram o “calhau” na voz de gente sem o que dizer.

Ao escrutínio público oferecem um debate que fortalece a ignorância e inspira ataques orquestrados ao trabalho jornalístico. Mas é preciso dar a Bolsonaro o espaço que ele merece. Os não preenchidos revelam mais do que a fala tosca e fútil que alimenta manchetes.

Só não vamos nos iludir. O “calhau” tem muitos nomes e sobrenomes. E a temporada 2022 promete.

Última atualização feita há 10 meses por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

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