Zininho nos recebeu com simpatia, mesmo sem ter planejado visitas naquele sábado. Estava na casa de um amigo em Sambaqui, bairro a 30 Km do centro de Florianópolis. Cercado por 40 anos de memória das rádios da cidade, deixou o acervo de lado para uma conversa que se estendeu até o fim do dia.

Lançado há algumas semanas, o PalavraMundo voltou à região onde conheceu Reinaldo, o arqueólogo mirim da ilha de Ratones Grande. E a busca agora seria ainda mais difícil, pensávamos. Claudio Alvim Barbosa, com 61 anos à época, não tinha planos de virar notícia.

Os amigos que deixamos na primeira aventura de reportagem nos ajudaram de novo. E a equipe do jornal cresceu: três repórteres mirins nos acompanhavam. Descobrimos o endereço onde Zininho vivia, perguntando pela rua.

A vida está melhor hoje ou estava melhor em 65, quando você escreveu o Rancho do Amor à Ilha?

Eu não sei, porque eu saí do Brasil. Eu estou em Sambaqui, agora (risos). Aqui eu nem leio jornal.

E como é morar em Sambaqui?

É viver (assobio baixinho).

PalavraMundo e Zininho em novembro de 1990

Estávamos no meio da manhã de um dia ensolarado no distante novembro de 1990. A janela do quarto onde Zininho mergulhava nas pesquisas do acervo dava para a rua. Graças ao clima, a vimos aberta. Bastou reconhecê-lo e as repórteres mirins se anteciparam.

Imerso no trabalho de recuperar a memória sonora da cidade, Zininho tirou os fones assim que percebeu a presença das meninas, já no quintal. Cristina, Kenia e Maristela, de cara, tiraram um sorriso do poeta que imortalizou o hino de Florianópolis.

Não foi uma entrevista clássica. Sentamos à mesa em um bar na esquina da casa onde o encontramos. Gravador ligado, Zininho ensaiou versos e respondeu a perguntas que, de tão singelas, pediam respostas difíceis.

Como é ser poeta?

Nem eu sei. A gente não é porque quer. Não tem hora, não tem dia, não tem momento. A inspiração vem em você. É só ver que eu não toco nenhum instrumento e quando a inspiração aparece eu já faço letra e música. Tudo junto.

Qual foi a melhor poesia que você fez até hoje?

Foram tantas que nem eu sei te dizer. Eu poderia parar pra pensar um pouquinho qual foi a menos pior (risos). Mas eu faço muito rabisco e jogo fora. Eu estou aqui (em Sambaqui) há sete meses. Agora, depois desses anos todos, é que eu estou começando a me motivar.

PalavraMundo e Zininho em novembro de 1990
Poeta Zininho recebe as repórteres mirins do PalavraMundo e folheia a primeira edição do jornal. A conversa com ele rendeu uma entrevista na edição seguinte. Foram momentos marcantes para quem não o conhecia pessoalmente nem sabia da importância de sua obra. As fotos são de Claudio Silva da Silva.

Aprendemos rápido o que significavam os assobios corriqueiros ao longo da entrevista. Era uma forma de evidenciar a inspiração. Enquanto assobiava, Zininho parava, olhava a esmo como se estivesse em outra dimensão. De vez em quando rabiscava em um guardanapo.

O cenário, na verdade, ajudava. Curiosas, as repórteres mirins faziam perguntas típicas de criança. Ninguém estava interessado em tirar manchetes daquela conversa. À mesa, entre uma cerveja e outra, os “adultos” curtiam o papo. Zininho estava em casa.

E a ecologia?

Estou vivendo entre os assustados.

Assustados com o quê?

Com a Ponta do Sambaqui. Eles têm a Beira-Mar lá que só está servindo para os coconautas, né? E querem trazer a marina pra cá! Isso é uma agressão.

PalavraMundo e Zininho em novembro de 1990

Gravamos umas cinco fitas cassete, cerca de cinco horas de conversa. Já era final de tarde quando nos despedimos de Zininho. A entrevista foi publicada na contra-capa do jornal, mais uma matéria na página anterior.

Tínhamos reservado a contra-capa para as entrevistas. Mas o tanto de material que conseguimos pedia algumas edições inteiras só para ele. Guardamos tão bem a gravação que não a achamos mais. Uma perda até hoje sentida. Poderia estar no acervo que Zininho tão bem cultivava.

E a lua se espelha na Lagoa mesmo?

Vocês nunca viram? Lá tem duas luas, uma em cima e outra lá embaixo.

E a Figueira?

Tadinha… Tá de bengala. Outro dia passei na Praça XV e quase tive um troço. Botaram barracas embaixo da Figueira. Que falta de respeito!

PalavraMundo e Zininho em novembro de 1990

A empresa que protagonizou o PalavraMundo, a Facto Comunicação, não vingou. Éramos onze sócios. Os fragmentos de toda a produção em diferentes frentes de trabalho não foram reunidos e o tempo encarregou-se de apagar as trilhas até eles.

Zininho tem a obra e aquele trabalho que ele fazia quando o interrompemos, no entanto, preservados. Em 2018, uma exposição organizada pela filha Claudia Barbosa lembrou os 20 anos sem aqueles assobios inspiradores e os rabiscos criativos.

Reprodução do PalavraMundo – edição de novembro de 1990
Reprodução da contra-capa do PalavraMundo – edição de novembro de 1990

Última atualização feita há 6 meses por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

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2 Comentários

  1. Que maravilha de resgate.. que trabalho importante, fundamental! Parabéns aos repórteres mirins, aos professores, editores e à todos os envolvidos neste trabalho. Obrigada pelo carinho e reverência à obra deste poeta querido e por manterem a memória do meu amado pai viva, mantendo-o eterno. Só morre quem não é lembrado. Podem ter certeza de que este trabalho ecoar pra sempre em vossas vidas, independente do caminho que escolherem seguir. Quem teve o privilégio nesta vida de conhecer este poeta chamado Zininho, entendeu que ele foi e sempre será uma estrela à ser seguida, levando a mensagem do amor à Ilha, à Vida, à poesia.

    1. Author

      Olá, Claudia. Singelo, muito singelo esse resgate perto da obra deixada pelo teu pai. Foi uma experiência ímpar, uma conversa inspiradora. Obrigado pelos comentários. Passados 30 anos, as repórteres mirins lembram desse dia com muito carinho. E nós também. Para um jornal de vida curta, desconhecido e feito para crianças e adolescentes, a edição com Zininho foi a mais especial.

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