Não há como se ter dúvidas quanto à eficácia das vacinas, a não ser que se desconsidere o volume de investimentos e o esforço em pesquisa sem precedentes na história humana

Vacinar crianças no Brasil é uma política pública reconhecida internacionalmente. Há décadas é o Estado que estimula, fornece e aplica imunizantes para diferentes tipos de doença. Contra a Covid-19 não deveria ser diferente. A necessidade e a urgência em seguir os protocolos de vacinação e ampliar a aplicação de imunizantes em faixas etárias ainda não incluídas no plano nacional são fatores preponderantes no combate à pandemia.

Na véspera de Natal, o Ministério da Saúde colocou em marcha uma consulta pública com o objetivo de “informar e conhecer as dúvidas” a respeito da vacinação em crianças de 5 a 11 anos. Como justificativa, insinua que o “cenário epidemiológico e regulatório atual” não oferece certezas quanto aos custos e benefícios desse procedimento.

Irrelevantes do ponto de vista epidemiológico, os questionamentos, abertos até o dia 02 de janeiro, servem apenas de pretexto para retardar um compromisso já firmado, uma vez que as doses de vacina para esse fim já foram compradas pelo Governo Federal. O formulário eletrônico também não oferece transparência. O resultado da consulta não tem como ser acompanhado, a não ser pela atualização do número de “contribuições” (pouco mais de 12.200 em 29/12 às 09:00h).

Alvo de ataques hackers, com a suspeita de que tenham sido feitos de dentro e com a anuência de servidores, o Ministério da Saúde está em descrédito. Ao longo da pandemia protagonizou uma série de alterações no sistema de microdados, estimulando a articulação de entidades que dependem deles para compilar informações confiáveis. O formulário eletrônico para a consulta pública soa como mais uma forma de manipulação para gerar outro falso debate.

Até o dia 05 de janeiro, a vacinação de crianças contra a Covid-19 vai servir de pretexto para, novamente, minar o rigor científico no combate à pandemia e enfatizar as dúvidas – inerentes ao trabalho da própria ciência – com informações descontextualizadas, falsas ou mesmo enganosas. Ao mesmo tempo, os registros de novos casos de Covid-19 no mundo vêm demonstrando uma escalada exponencial da variante Ômicron, recebida no Brasil sem muitos cuidados.

Ministro da Saúde abre consulta pública sobre vacinação em crianças.  Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Apagão de dados e invisibilidade do vírus no Brasil

Com o sistema de monitoramento do Ministério da Saúde “instável”, não há como se ter certeza quanto aos impactos da variante Ômicron no Brasil. O que a ciência antevê, mesmo sem informações qualificadas, é uma repetição do que já vivemos em outras ondas da pandemia. Novos picos de contágio são aguardados em breve, como mostram os números verificados nos países em que a Ômicron já é dominante.

Sem dados confiáveis, quaisquer prospecções não passam de especulação. Inclusive as positivas. Instituições de pesquisa brasileiras catam as migalhas de que dispõem para compor um quadro o mais delineado possível sobre o que nos espera. Sem testes suficientes, sem o acompanhamento sistematizado e o acesso rápido aos dados, e sem a vacinação de crianças não há cenário animador no futuro próximo.

Quem acompanha o painel de atualização do Ministério da Saúde para os casos de Covid-19 consegue hoje (29/11) os microdados “atualizados” até o dia 21 de dezembro. Para se ter certeza quanto à confiabilidade da base, defasada em mais de uma semana, só comparando os dados com as atualizações mais recentes nos estados e no Distrito Federal. Alguns deles também sem atualização.

Ontem (28/11), o mundo alcançou o pico de novos casos, com 1,45 milhões de registros. Isso é quase 500 mil a mais do que o verificado no dia anterior. A média móvel em sete dias alcançou o patamar de 929,5 mil. Mesmo em países com o processo de vacinação adiantado, os novos picos de contágio preocupam.

Nos Estados Unidos, onde se estima que quase 60% dos casos de Covid sejam provocados pela Ômicron, os hospitais pediátricos vêm apresentando dados alarmantes. O número de internações de crianças em Ohio, Texas, Pensilvânia e Nova Iorque saltou 31% em dez dias. Em escalas diferentes, o mesmo se verifica no Reino Unido. Nos dois países, a vacinação em crianças de 5 a 11 anos já está em andamento.

A média móvel de casos em sete dias chegou a 929,5 mil ontem (28/11), recorde até aqui. Em número de registros, forma mais de 1,45 milhões no mundo inteiro, mesmo em países com taxa de vacinação alta. Gráfico reproduzido do Our World in Data

O que se sabe até aqui sobre a Ômicron

Três aspectos da nova variante chamam a atenção dos pesquisadores: as taxas de hospitalização e morte não parecem aumentar; o comportamento do vírus em alguns países sugere que a alta transmissibilidade tende a gerar picos mais curtos de casos; e as vacinas mostram que, mesmo com perdas na imunidade, são suficientes para proteger contra infecções graves provocadas pela variante.

As evidências ainda são parciais. Não há estudos suficientemente robustos para se fazer afirmações concretas. Mas nos países em que a nova variante se disseminou rapidamente, os casos parecem estar diminuindo com a mesma velocidade. Além disso, os casos graves não parecem ter estressado mais do que o previsto o sistema de saúde.

Céticos diante de afirmações que sugerem certezas, os pesquisadores reconhecem que os riscos de hospitalização e infecções agudas são menores. Recente estudo do Imperial College mostra evidências de que a probabilidade de infectados necessitarem de cuidados hospitalares é baixa. Os estudos, no entanto, se resumem à Inglaterra.

Existem “pontos cegos” na interpretação dos dados, especialmente porque são muitos os fatores que interferem na qualidade das observações. O sequenciamento do genoma do vírus, essencial para se determinar novas variantes, está sendo feito em escala muito maior agora. Nos últimos oito meses, os cientistas forneceram cinco vezes mais sequências do que nos primeiros 16 meses da pandemia.

As ressalvas, no entanto, estão na desigualdade de recursos em países menos preparados para lidar com a pandemia. Mesmo dentro de países em melhores condições, o baixo investimento no sequenciamento e a má qualidade dos testes podem prejudicar os resultados globais.

O Brasil, por exemplo, não faz testes suficientes, os laboratórios estão concentrados em grandes centros urbanos de estados mais desenvolvidos e, como já dissemos, os dados oficiais não oferecem confiabilidade quando centralizados pelo Governo Federal. Considerando a transmissibilidade da variante Ômicron e a lentidão nas análises, não há como saber o quão abrangentes são os casos no país.

Cuidados com higiene, uso de máscaras e distanciamento físico continuam sendo necessários. A pandemia ainda não terminou. Mas a emergência é por vacina. Doses de reforço são necessárias para diminuir a incidência da Ômicron, tanto quanto fazer chegar imunizantes nas regiões ainda não contempladas com uma proporção saudável de vacinados.

E isso inclui as crianças.

O gráfico mostra o nível de proteção das vacinas mais usadas no combate a Covid-19 ao longo do tempo. Contam-se aqui os dias a partir da imunização, com as duas doses no caso da maior parte delas. Mesmo com a queda acentuada nas taxas de proteção, os pesquisadores atestam que as vacinas são eficazes contra infecções graves da variante Ômicron e sugerem a dose de reforço para aumentar a imunidade. Fonte: Airfinity, com análise da Nature.

Vacinar a população em qualquer idade é chave

No final de outubro os Estados Unidos viram uma incidência de casos em crianças bem superior à de outras faixas etárias. Por isso, no início de novembro, houve recomendação de vacinar a população entre 5 e 11 anos. Outros países acompanharam a medida por uma razão bem simples: mesmo que em proporções menores, as infecções graves em crianças vêm alvançando um número muito alto em termos absolutos.

Todos os estudos clínicos usados como referência pela Food and Drug Administration (FDA) – a Anvisa dos EUA – para aprovar a administração da Pfizer em crianças evidenciaram que os riscos são bem menores que os benefícios, especialmente em um momento no qual o número de casos vem aumentando exponencialmente.

As projeções de diferentes pesquisas de modelagem apontavam um alto risco com o surgimento de uma nova variante, o que acabou se concretizando com a Ômicron. A vacinação em crianças entre 5 e 11 anos reduz significativamente, segundo as projeções, as hospitalizações e mortes por Covid-19 nessa faixa etária. E contribui bastante para a redução no número de casos.

Não há qualquer justificativa, seja do ponto de vista epidemiológico ou mesmo político, para se retardar a vacinação nessa faixa etária, como quer o governo brasileiro. Tanto a Anvisa quanto técnicos do Ministério da Saúde confirmam as evidências que corroboram a necessidade de ampliar a imunização contra a nova variante.

E as evidências não são poucas.

Os gráficos enfatizam a importância da vacinação em crianças em função de uma nova variante, como a Ômicron. A redução de casos, hospitalizações e mortes em crianças vacinadas é evidente. Fonte: Centro de Modelagem de Cenário COVID-19, com reprodução da Nature.

Esforço, investimento e critérios mais ágeis

Quem ainda duvida do sucesso das vacinas contra a Covid-19 não leva em consideração fatores cruciais que impulsionaram pesquisa e produção. Engana-se quem acha que não houve tempo para gerar evidências de efetividade dos imunizantes usados atualmente.

Primeiro é preciso lembrar que estudos sobre o comportamento de vírus similares, associados a doenças respiratórias, e sobre tecnologias de vacina têm sido realizados há algums décadas. Vacinas contra a Covid-19 ganharam velocidade em função desse “banco de experiências”.

Além disso, o fluxo de financiamentos diante de uma emergência sanitária sem precedentes promoveu a produção de mais de 8 bilhões de doses até aqui. Os investimentos permitiram que as fabricantes corressem o risco de financiar etapas simultâneas de testes, o que, de certo modo, também aumentou exponencialmente as oportunidades para ampliar os serviços de pesquisa e desenvolvimento.

Só nos Estados Unidos, a Operação Warp Speed ​​distribuiu às farmacêuticas US $ 10 bilhões em dinheiro dos contribuintes, algo que a indústria nunca tinha visto. Os países mais ricos, na verdade, se viram obrigados a financiar essa corrida para minimizar a crise econômica decorrente das medidas de restrição sanitária para conter o vírus e não colapsar os sistemas de saúde.

Por fim, os órgãos de fiscalização e controle sanitário encurtaram o processo de análise, priorizando a busca de soluções tão rápidas quanto eficazes para o controle da pandemia. Das quase 200 vacinas em teste no mundo inteiro, 23 já estão em uso com algumas restrições em casos bem específicos.

Em termos concretos, por mais dúvidas que pairem sobre as cabecinhas obscurantistas espalhadas pelo planeta, a ciência mostrou-se capaz de dar uma resposta qualificada e rápida à pandemia, além de uma articulação nunca antes vivenciada, cujos resultados são promissores para muitas outras áreas.

Gráfico mostra o fluxo de tempo na produção de diferentes tipos de vacina. A concentração de recursos financeiros e de formas de investimento em pesquisa e desenvolvimento foi um dos fatores cruciais para a resposta rápida na produção de vacinas contra a Covid-19. Fonte: Our World in Data – Análise: revista Nature

Explosão de conhecimento, recursos e descrédito

Há uma “explosão de conhecimento” sobre vacinas, especialmente as vocacionadas para a Covid-19. Só a revista Nature calcula que mais de 15 mil artigos sobre esses imunizantes foram publicados desde o ano passado. Em 2021 são onze mil, o que representa 47% das publicações sobre vacinas.

Além disso, estratégias mais ágeis na revisão de estudos científicos estão contribuindo para tornar mais rápidas e eficazes as decisões tomadas diante de um cenário ainda bastante incerto. Enquanto aprendemos com a pandemia, determinadas afirmações podem perder validade, mesmo quando amparadas pela ciência.

As evidências dependem de condições controláveis e diferentes perspectivas de análise. As “sínteses de evidência” vêm oferecendo um recurso importante para a gestão da pandemia. Ao reunir vários estudos e colocá-los em comparação, as sínteses oferecem uma visão mais ampla do que se tem disponível em termos de conhecimento.

Com a ajuda da inteligência artificial, da aprendizagem de máquina e da colaboração científica em rede, os processos de revisão estão ganhando agilidade e segurança. Novos protocolos para a atualização regular e monitoramento das bases de referência bibliográfica estão sendo usados também para produzir evidências “para uso imediato”.

É um universo inteiramente novo. Para superar a pandemia e seus efeitos drásticos nos mais diferentes âmbitos da vida cotidiana, a ciência se alia ao setor produtivo, auxilia em políticas públicas e constroi ferramentas que ampliam e socializam cada vez mais a produção de conhecimento.

Entretanto, para os cientistas nunca foi tão difícil convencer as pessoas de que os estudos que promovem, merecem credibilidade. Argumentos sem quaisquer evidências desinformam em proporções bem maiores do que os resultados científicos que chegam ao público em geral.

Última atualização feita há 2 semanas por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

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