Publicado originalmente no Linkedin

Minha formação em Jornalismo me treinou para reconhecer fatos e as possíveis versões que se constroem sobre eles. Mesmo nas mídias sociais. Por mais que conheça quem postou uma informação (e sou bastante seletivo na leitura), costumo verificar se tem alguma procedência.

Fico encafifado com aqueles quadrinhos tipo slide de apresentação mal montados, com as imagens granuladas indicando manipulação grosseira, com as declarações atribuídas a personalidades e que vestem como uma luva em minhas crenças…

Ainda assim, não foram poucas as vezes em que apaguei postagens sobre as quais me iludi e não tive a responsabilidade de apurar minimamente de onde vieram ou se tinham credibilidade. Na quase totalidade, eram informações que correspondiam a fatos desatualizados.

Sabe quando uma publicação tratando de coisas que aconteceram anos antes é usada em um contexto atual e também encaixa direitinho? Pois é. Hoje, a primeira coisa que verifico quando acesso uma informação que encontro na linha do tempo de qualquer mídia social é a data da publicação original.

Também pesquiso (no Google mesmo) se tem outras fontes falando sobre o assunto, se tem alguma repercussão mais atual e vou encadeando os procedimentos de checagem aos quais todo mundo tem acesso e poucos usam.

As armadilhas são tantas que é necessário dedicar um tempinho para selecionar o que compartilhar. Informações falsas, ou desinformação de qualquer tipo, não podem ser tratadas de qualquer jeito. Penso muitas vezes antes de republicá-las, mesmo denunciando seu viés enganoso.

Sempre tem alguém que não lê direito ou se encanta mais com o viés do que com a denúncia.

Tem solução?

Sair das mídias sociais, como já me sugeriram, não é viável. Quem lida com informação precisa estar nesse universo digital onde todo mundo é entendido em algo, o mais ingênuo supõe que tenha algo a dizer e o exercício da liberdade de expressão ultrapassa quaisquer limites de civilidade. É contemporâneo e não pode ser negligenciado.

Por isso também dedico um tempinho para acessar estudos sobre esse fenômeno. Os mais recentes que li, e compartilho aqui, me motivaram a escrever este texto.

Um deles, do MIT Sloan, queria saber como e porque a desinformação sobre Covid-19 se espalha nas redes (em inglês). Em síntese, um grupo, entre 850 pessoas, foi convidado a analisar a veracidade de manchetes sobre a pandemia, outro a manifestar interesse em compartilhar as mesmas informações. Mais gente se propôs a compartilhar informações falsas do que reconhecer que não eram verdadeiras (em inglês).

Os pesquisadores foram além: se perguntaram sobre o que as levavam a fazer isso. E repetiram o experimento. Na segunda etapa, porém, um dos grupos foi convidado a analisar que manchetes compartilhariam, entre verdadeiras e falsas. O outro foi convidado a, primeiro, verificar a precisão das informações antes de compartilhar.

Quem realizou a tarefa passou a valorizar as informações mais precisas e a propensão em compartilhá-las. Para os pesquisadores, um indício de que mecanismos para fazer as pessoas buscarem mais subsídios antes de fazer uma informação circular podem ser gatilhos importantes de qualificação das postagens em mídias sociais.

A mesma escola, em outro estudo, fornece pistas para o fato de que a chamada alfabetização digital pode fazer as pessoas reconhecerem informações falsas (em inglês), mas não as torna menos propensas a espalhá-las em seus círculos de contato.

Entre as pouco mais de 1,3 mil pessoas que foram ouvidas e representam estratos socioculturais característicos da população nos Estados Unidos, a maioria mostrou que escolhas partidárias, por exemplo, influenciam menos no compartilhamento de desinformação (em inglês) do que o entendimento sobre como funcionam os dispositivos digitais e suas dinâmicas editoriais.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores perceberam também que, sem analisar a precisão das informações que acessam, as pessoas tendem a compartilhar desinformação, estando ou não “alfabetizadas” para o uso dos dispositivos digitais e seus mecanismos de distribuição.

Os dois estudos chegam a conclusões semelhantes: é preciso um “empurrão”, um estímulo à verificação de manchetes, notícias, informações de todo o tipo que circulam nas mídias sociais. As pessoas precisam ser lembradas com frequência de tomar alguns cuidados, básicos, antes de sair repetindo o que supostamente parece verdadeiro ou cabe nas crenças particulares.

Em um cenário de polarizações extremas e de campanhas para desacreditar o Jornalismo, a Ciência e as instituições democráticas, as conclusões (ainda não avaliadas por pares e, portanto, provisórias) sugerem que as motivações para a disseminação de informações falsas podem ter mais a ver com a falta de conhecimento sobre os recursos disponíveis para verificação de evidências sobre o que se diz do que preferências pessoais.

E reforçam a necessidade de “controlar” a indústria dos “likes” e da “lacração”.

Última atualização feita há 6 dias por luciano.bitencourt. As atualizações referem-se a pequenas correções que vão de erros de grafia a alterações pontuais na estrutura de frases para facilitar a leitura. Não são “erratas”. Estas, quando acontecem, são explicitamente indicadas no conteúdo.

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