Quem me abriu as portas para o jornalismo esportivo foi Nimar Bittencourt. Ele próprio não se reconhecia como jornalista. Nimar se intitulava cronista esportivo.

Pode parecer um detalhe sem importância, mas isso diz muito sobre a mecanização das coberturas esportivas nos dias de hoje. A crônica é fruto de contemplação, transborda subjetividades mesmo quando transforma o cotidiano em objeto.

Essa concepção não diz respeito só aos textos sobre o esporte. Na verdade, diz muito sobre o exercício de produzi-los.

A trajetória de Nimar na crônica esportiva era a do tempo dos práticos, dos jornalistas “provisionados”, reconhecidos na profissão pela experiência quase sempre irrefletida. E o esporte, especialmente o futebol, é um campo fértil para experimentações.

Os cronistas de esporte, tendo o futebol como carro-chefe, protagonizaram uma simbiose cujo resultado Mauro Betti chama de esporte da mídia, onde raramente a fronteira do tecnicismo e do verbo burocrático é ultrapassada.

Ainda tem um pouco da contemplação do cronista na cobertura esportiva atual. Mas a crônica está desaparecendo, expulsa pelo uso compulsivo da ciência de dados, da tradução simplória do óbvio enquadrado pelo olhar de quem vê mais técnica do que humanidades, da opinião que não dialoga, da piadinha de boteco.

Nessa falação, muito se diz, pouco se informa de fato. A falação esportiva, descrita por Umberto Eco em artigo homônimo há cerca de sete décadas, trata de uma relação entre o atleta, o espetáculo e o discurso especializado na qual “se exercitam e se naturalizam as energias intelectuais” em última instância.

É, portanto, no campo dos prognósticos, da análise funcional do esporte transformado em espetáculo, do enquadramento lógico sobre uma economia da atenção focada na imagem que esse esforço intelectual naturalizado se põe a treinar exaustivamente.

Fala-se muito sobre atuações, desempenhos e resultados como se estes não dependessem de fatores que extrapolam o esporte da mídia. Não existem vínculos com políticas públicas, produções culturais, hegemonias econômicas, pressões sociais quando se fala.

Mestre de cerimônias

O esporte da mídia, no fim das contas, é entretenimento. E o jornalismo esportivo, via de regra, tem se portado mais como mestre de cerimônias dos eventos gordos em verba publicitária.

No Catar, por exemplo, a Copa do Mundo de futebol é retratada em estatísticas, projeções, prognósticos, análises táticas e opiniões especializadas. As questões políticas e culturais antagônicas ao tipo de espetáculo que o país sede deseja mostrar ao mundo são secundárias, coisa de manifestantes isolados contra algo alheio ao esporte.

Se o jornalismo esportivo é realmente uma forma de jornalismo, não é suficiente abordar essas questões espinhosas, como a repressão política e cultural no Catar, apenas pela boca dos entrevistados, sejam atletas, treinadores ou dirigentes. Terceirizar pontos de vista sobre o que estamos vivendo tem nada de jornalismo, aliás.

Jornalista esportivo teria, em tese, que sujar os sapatênis, focar as energias intelectuais onde as câmeras de alta definição não estão direcionadas e romper a falação circular sobre a competição. Furar a bolha, como se diz.

Seria bom para o entretenimento? Irrelevante. O jornalismo daria ao espetáculo algo mais próximo da vida local que o turismo de eventos teima em esconder. Faz parte do show revelar o que não se quer ver exposto. Junto com a falação, é óbvio. Não se trata de negar o espetáculo, mas dar a ele uma face menos maquiada.

Pois bem, quando Nimar me abriu as portas para o jornalismo esportivo, era com as lentes dele que eu enxergava o campo. A lente dos “práticos”.

Transitei muito tempo nesse campo sem ferramentas para furar a bolha. Minha vida acadêmica na graduação de jornalismo concorria com a editoria de esportes do jornal O Estado. Concorrência desleal, diga-se, uma vez que a prática da profissão é sempre mais simples do que pensar o lugar que ocupamos.

Nimar também reconheceu isso enquanto esteve no ar pela TV Capital com o programa Falação Esportiva (sim, inspirado em Umberto Eco). Ele colocava no mesmo patamar pesquisadores e acadêmicos, jornalistas, atletas, dirigentes, todos expondo uma faceta do esporte para além da mídia.

Morreu cronista esportivo há dez anos. Mas, quando se aventurou por espaços mais próximos do jornalismo, contribuiu para municiar debates relevantes a respeito dos impactos que a indústria da comunicação e do esporte provocam na sociedade, hoje excessivamente midiatizada.

O Departamento de Esporte, Cultura e Lazer da Secarte/UFSC e o Instituto de Estudos Latino-Americanos estão lançando agora o programa Falações Esportivas, com o mesmo tipo de abordagem adotada semanalmente por Nimar entre 2005 e 2010 na emissora de sinal fechado, então dirigida por Paulo Roberto de Souza. Claro, o programa é outro. O cenário esportivo, nem tanto.

O programa de estreia pode ser visto no YouTube e avalia-se a possibilidade de ocupar um espaço na programação da TV UFSC. Uma falação mais elaborada e diversificada ganha espaço de novo.

Programa de estreia Falações Esportivas, apresentado por Eleine Tavares e produzido por Paulo Capela. É só dar play.

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